Artigo: Cristo morrendo, destruiu a morte

A história das civilizações atesta como nas diversas culturas se encontram rituais para os mortos. Estudos antropológicos apontam os ritos funerais como dos mais antigos. Cuidados com os defuntos, formas de sepultamento, urnas e vasos funerários, sarcófagos, túmulos cavados nas pedras, sepulturas e outros são indicativos de como o ser humano ritualiza a morte. Esse, diante da morte, tende a amenizar não apenas a dor pela perda de seus entes queridos, mas tende a afastar para longe a hora da própria morte, pois se existe uma certeza para aquele que nasceu é a certeza de que morrerá. Tal evidência incômoda foi expressa pelo filósofo Martin Heidegger com a afirmação de que o “ser humano é um ser para a morte”.

Em tempos hodiernos, se a morte parece ser um pouco mais adiável, considerando os avanços e recursos das ciências médicas, quando ela chega é hora de lidar com os ritos funerários. Embora haja uma tendência recente de disfarçar a morte, afastando-a do ambiente familiar, instituindo velórios temáticos para celebrar os gostos da pessoa falecida ou espalhando as cinzas de um corpo cremado em lugares especiais, é inegável que o anúncio de um óbito traz sempre para alguém lágrimas e interpelações existenciais. Nesse momento, emerge para muitos a pergunta pelo sentido da vida.

A fé cristã celebra a morte de seus fiéis com os olhos fixos no Ressuscitado. Certamente foi com esse olhar que os monges de Cluny, nos anos finais do primeiro milênio, introduziram a celebração de uma missa solene no dia 2 de novembro, na intenção de todos os mortos que dormem em Cristo. O Papa Silvestre II (999-1003) recomendou e estimulou essa iniciativa que se espalhou para diferentes regiões, até que o Papa Bento XV, no contexto da Primeira Guerra Mundial, estendeu a toda a Igreja a possibilidade de cada sacerdote celebrar nesse dia três missas, das quais uma deveria ser na intenção de todos os defuntos.

Para os cristãos, a celebração de Finados é revestida de um tom pascal. A Boa-Nova de Jesus Cristo é a vitória sobre a morte. O Filho de Deus assumiu nossa condição em tudo, até a morte. Mas a venceu a partir de dentro. Não fugiu da morte, mas a tomou nas mãos para vencê-la. Iluminados pela ressurreição de Cristo, os cristãos creem que não nasceram para morrer, mas para ressuscitar: “Assim, como todos morrem em Adão, em Cristo todos receberão a vida” (1Cor 15,22). A Igreja, por sua vez, ora com essas palavras no Prefácio da Páscoa I: “Cristo, nossa Páscoa, foi imolado. Morrendo, destruiu a morte, e, ressurgindo, deu-nos a vida”.

Desde o início do ano 2020, no mundo inteiro, milhões de pessoas morreram em razão da pandemia da COVID-19. Somente o Brasil já sepultou mais de 600 mil pessoas vítimas do novo coronavírus. O respeito aos mortos se estende na solidariedade com os enlutados. Não podemos esquecer seus nomes, suas histórias, seus feitos. Fazer memória dos mortos pela visita aos cemitérios ou pela oração em casas ou igrejas é reconhecer que há inúmeros corações feridos pela morte das pessoas amadas. É tocar a mais cruel das verdades: somos mortais. Mas é, também, renovar a mais genuína profissão de fé cristã: Creio, Senhor, na ressurreição!

 

+ João Justino de Medeiros Silva
Arcebispo Metropolitano de Montes Claros


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